segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

“What it meant to me will eventually be a memory”

A Semana Passada

Antes de eu ter feito amigos, fui apunhalada muitas vezes. Espantosamente, nenhuma dessas vezes doeu, nenhuma dessas vezes me fez chorar, nenhuma dessas vezes me fez questionar o meu valor como amiga. Precisamente porque essas pessoas não eram minhas amigas de verdade. Assim, as feridas não sangravam, não doíam nem com a crosta em cima; a ferida criava-se e, depois, a ferida sarava. Não doía. Tinha apenas repercussões psicológicas; a confiança em mim era inexistente, era introvertida, não sabia rir.

Mas quando conheci o 10ºH, agora o 11ºG fui restaurada magicamente. Ganhei amigos, os melhores amigos que alguém pode ter, os meus melhores amigos. Com eles redescobri-me e cresci como pessoa: descobri a existência da minha alma, o meu coração sarou permanentemente todas aquelas cicatrizes de falsa confiança e facadas dissimuladas; aprendi a rir, e agora adoro rir. Às vezes, por nunca ter tido amigos, não sei se sou uma boa amiga. Às vezes posso ser demasiado chata, demasiado aborrecida, demasiado calada, ou então, demasiado irritante, demasiado criança, demasiado idiota. Tendo a ser muito insistente, muito “O que é tens?”, muito “Dá-me um abraço”, muito… “Breda, menos!”, como diz o meu amigo Brinco. Mas não importa; não sou menos amiga por causa de algum disturbio de personalidade. Tenho confiança nos meus amigos, sei que quando eles precisarem, eles podem contar comigo. O meu único medo é perdê-los. Fico doente só de me imaginar sem eles, outra vez aquela sombra caminhante, lúgubre, inacabada.

Sim, os meus amigos completam-me.

No entanto, na semana passada, levei com duas lambadas seguidas. Caraças, aquilo doeu bastante! - mais do que a joelhada que levei no outro dia na Educação Física, mais do que ter arrancado os dois dentes para o aparelho continuar a fazer o seu trabalho magnífico, mais do que as dores menstruais que às vezes me impedem de levantar da cama. Chiça, é horrível quando aquela sensação de impotência nos invade, e de repente damos por nós  a questionar todas e cada uma das lembranças. Aquilo que fizemos, e que podíamos ou não devíamos ter feito, aquilo que dissemos, e que podíamos ou não devíamos ter dito. É uma sensação horrível, esta… Mas todos nós a experimentámos na vida. Lamento se quebrei a inocência de alguém, mas a verdade é esta: a vida não é cor-de-rosa. (E eu odeio cor-de-rosa! ~ é só um aparte :D) Contudo, é absolutamente arrasador sermos apunhalados por pessoas que confiámos, a quem nos entregámos, a quem demos tudo por tudo. É angustiante depararmo-nos com esse cenário. Pessoalmente, senti-me rasgada ao meio, mutilada, despedaçada. Há poucas coisas que me partem o coração dessa forma; uma está agora a sarar lentamente, pé ante pé; mas estas lambadas, essa confiança atraiçoada…! Fiquei sem forças, senti-me inútil. Fiz aquilo que já fizera uma vez, estupidamente; tornava a repeti-lo, talvez com mais razão do que anteriormente: questionei o meu valor como amiga.

Foda-se.

A Carina… Eu e a Carina temos um passado, apesar de a distância ter-se instalado (quase) confortavelmente entre nós. A Carina foi a primeira amiga de verdade que eu tive. Foi quem me estendeu a mão, foi quem despertou a minha vontade de rir, foi quem me ensinou a confiar e, ironicamente, foi quem permitiu que conquistasse tudo o que tenho hoje. Os amigos que tenho agora,… talvez os tenha por causa dela. E à medida que me fui entregando a eles timidamente, eu e a Carina começámos a caminhar trilhos opostos. E subitamente, para muita pena minha, passámos a ser conhecidas que nutrem um grande carinho uma pela outra. Esta situação sempre me magoou. Acho que nunca escondi isso de ninguém, sempre disse: “Sinto-me culpada. Abandonei a Carina.” Tentei resolver as coisas. Sem sucesso. À poucas semanas, o Nelson disse-me: “A culpa não é tua. Ela simplesmente se afastou, ela simplesmente se mantém à margem. Foi uma escolha dela. Ela simplesmente não quer andar connosco, afastou-se, mas a culpa não é tua.” Mais ou menos assim. A Vânia também me dissera o mesmo, embora por outras palavras; afirmou que não fui eu que a abandonei senão o contrário. Isto custa-me um bocado a engolir; sinto que sou responsável por isso, há quem partilhe do mesmo ponto de vista que eu.

A Carina nunca me foi indiferente, apesar da distância. Sempre matutei nesse cenário de abandono, sempre cogitei que fui uma má amiga para com ela… derramei lágrimas por isso. Lágrimas sentidas, sofridas, de desculpa, sem terem sido sequer exprimidas. Tudo para apanhar com aquele balde de água gelada, mais gelada que as águas do Ártico: “Já tenho os meus amigos, sei que posso contar com eles. Mas continuo a gostar muito de ti.” Não é lixado quando a realidade nos beija desta forma crua, rude e fria?

Mas a vida é feita de coisas duplas, sabem? Da mesma maneira que há o branco e o preto, o sol e a lua, o bem e o mal, não podia haver uma só lambada…

O J… O J é uma personagem e pêras. 25 anos, sorriso de 17, visões samaritanas do mundo, recentemente coroado por mim o Santo Padroeiro dos Pobrezinhos. Uma pessoa envelhe cinco dias a tentar discutir com ele. Tem que ser como ele quer; tem muita língua para falar do mundo e disto e daquilo, mas também tem muita lábia para se congratular a si próprio. É arraçado de convencido, provavelmente aparentado à Hermione Granger do Harry Potter – sabem, aquela sabe-tudo que até fica irritante? – porque ele também julga saber tudo. E a Carina é o seu mundo. É de tal forma o seu mundo que, – eu sei, sou ingénua, benevolente, ignorante! – encontrar-me foi uma forma de obter acesso a ela. A mim seguiu-se quase o pessoal todo da turma; recentemente, a Rita. E esta fábula enoja-me, não só por causa da diferença de idades, mas também porque é deprimente a forma como ele se arrasta por uma miúda ainda tão sem noção do mundo. É patético! Enfim… na semana passada – sim, é óbvio que não foi a minha semana – armadilhou uma bomba que, e cito o Ayrton, “atiçou as bestas”. Magoou-me bastante o que ele disse. Não aquilo que me disse sobre mim, mas aquilo que disse dos meus amigos. Distorceu completamente o nosso mundo naquele seu ‘texto reflexivo’, ao chamar-nos de idiotas, gente de má educação. A ideia que ele tem de nós é que não respeitamos as diferenças, que marginalizamos aqueles que possuem características que, vá, levam a piadinhas. Admitimos: gozamos. Mas é um gozo sem malícia. Todos nós temos defeitos! Se fossêmos todos iguais, o mundo não tinha piada. E é precisamente por sermos diferentes que temos toda esta química, toda esta envolvência profunda. Mas há quem prefira manter-se à margem, julgar o livro pela capa… Mas nós não fechamos os portões; os portões dos nossos corações estão sempre abertos a pessoas novas; e é essa a maravilha da amizade.

Não pretendo de forma alguma, com este texto, riscar o ponto final e meter uma vírgula. Aquilo que aconteceu, aconteceu. C’est fini. E agora seguimos em frente. Um dia, poderei perdoar o J por aquilo que disse; ele não é má pessoa, apenas precisa de… y’know, suavizar um bocado, curtir a vida. (25 anos, meu, é para descobrires o mundo, lutares, conquistares e não prenderes-te a essas coisas singelas e vulgares; há quilhões de gente no mundo. Foi essa a lição de “Deus”: nascer junto não tem piada, temos que correr o mundo à procura da nossa metade.) E quanto à Carina… ainda não sei o que pensar. Não irei fazer disto o centro do meu mundo; continuo a nutrir por ela um carinho muito grande, mas aquela frase ainda flutua na minha mente, tão vívida como o facto de saber que tenho o trabalho de casa de português para fazer.

E cito Martin Luther King Jr: “Devemos aceitar a decepção finita, mas nunca perder a esperança infinita.”

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Para Um Amigo Tenho Sempre…

Para um amigo tenho sempre um relógio
esquecido em qualquer fundo de algibeira.
Mas esse relógio não marca o tempo inútil.
São restos de tabaco e de ternura rápida.
É um arco-íris de sombra, quente e trémulo.
É um copo de vinho com o meu sangue e o sol.

António Ramos Rosa, Viagem através de uma Nebulosa

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Teus Olhos Entristecem

Teus olhos entristecem
Nem ouves o que digo.
Dormem, sonham esquecem...
Não me ouves, e prossigo.
Digo o que já, de triste,
Te disse tanta vez...
Creio que nunca o ouviste
De tão tua que és.
Olhas-me de repente
De um distante impreciso
Com um olhar ausente.
Começas um sorriso.
Continuo a falar.
Continuas ouvindo
O que estás a pensar,
Já quase não sorrindo.
Até que neste ocioso
Sumir da tarde fútil,
Se esfolha silencioso
O teu sorriso inútil.


Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Tempo

‎Tempo, Tempo... Quando é que me benzes com o esquecimento?
Diz-me Tempo, quando é que esta ferida se fecha,
quando é que esta estrela tornará a brilhar,
como nos tempos de bonança?
Tempo, Tempo... Que tal congelares o meu coração
para não sentir mais esta angústia venenosa?
Age, Tempo,
age antes que tudo fique perdido...!

Ana Breda

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Para os Amigos

De entre todos, apenas vós
tendes direito a ver-me
fracassar. Onde caio
entre a vossa irónica
doçura implacável, convosco
partilho o pão e o espaço
e a rapidez dos olhos
sobre o que fica (sempre)
para dar ou dizer.
E de vós me levanto
e vos levo pesando
e ardendo até onde
me ajudais a ser
melhor ou talvez
menos só.

Vítor Matos e Sá | companhia violenta

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Sorriso Audível das Folhas

Sorriso audível das folhas
Não és mais que a brisa ali
Se eu te olho e tu me olhas,
Quem primeiro é que sorri?
O primeiro a sorrir ri.
Ri e olha de repente
Para fins de não olhar
Para onde nas folhas sente
O som do vento a passar
Tudo é vento e disfarçar.
Mas o olhar, de estar olhando
Onde não olha, voltou
E estamos os dois falando
O que se não conversou
Isto acaba ou começou?

Fernando Pessoa | Cancioneiro

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Soneto de um Céptico

 

“Febo há muito desceu no Ocidente

Por trás dos montes de rosa tingidos;

Eu, sofrendo, cerro os olhos doridos

Olhando o mundo que ante mim se estende.

Pois pela noite o rio silente desce,

Oculto no escuro já voa o morcego;

Mas, nocturna, a alma não tem sossego,

É na escuridão que meu horror cresce.

Odeio a noite que a mim se assemelha,

Só que em mim, nem astro ou centelha

Dispersa as nuvens da alma e da mente.

Mas como a noite em seu manto sombrio,

Calado e escondido me quedo no frio,

Envolto em dúvidas e delas temente.”

Alexander Search | Poesia