segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Sorriso Audível das Folhas

Sorriso audível das folhas
Não és mais que a brisa ali
Se eu te olho e tu me olhas,
Quem primeiro é que sorri?
O primeiro a sorrir ri.
Ri e olha de repente
Para fins de não olhar
Para onde nas folhas sente
O som do vento a passar
Tudo é vento e disfarçar.
Mas o olhar, de estar olhando
Onde não olha, voltou
E estamos os dois falando
O que se não conversou
Isto acaba ou começou?

Fernando Pessoa | Cancioneiro

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Soneto de um Céptico

 

“Febo há muito desceu no Ocidente

Por trás dos montes de rosa tingidos;

Eu, sofrendo, cerro os olhos doridos

Olhando o mundo que ante mim se estende.

Pois pela noite o rio silente desce,

Oculto no escuro já voa o morcego;

Mas, nocturna, a alma não tem sossego,

É na escuridão que meu horror cresce.

Odeio a noite que a mim se assemelha,

Só que em mim, nem astro ou centelha

Dispersa as nuvens da alma e da mente.

Mas como a noite em seu manto sombrio,

Calado e escondido me quedo no frio,

Envolto em dúvidas e delas temente.”

Alexander Search | Poesia